Folias de Reis: tradição que resiste aos modismos
A IMPORTÂNCIA DAS FOLIAS DE REIS NA CULTURA BRASILEIRA
► Trazidas ao Brasil pelos portugueses, as Folias de Reis são grupos de manifestações populares que representam a viagem dos Três Reis Magos do Oriente - Melquior, Gaspar e Baltazar - com destino à Manjedoura onde nasceu o Menino Jesus. Suas saídas, as quais chamamos de Jornadas, se dão em duas fases: na primeira, que começa dia 24 de dezembro e vai até o dia 6 de janeiro, as Folias cantam saudando o nascimento de Jesus Cristo e cujos versos se baseiam nas antigas profecias que anunciam o advento do Salvador; na segunda fase, que vai de 6 a 20 de janeiro, elas cantam em louvor a São Sebastião (Padroeiro do Rio de Janeiro) e, nesse caso, não são obrigados a carregar os palhaços, que representam os soldados de Herodes, cuja vestimenta significa a farda: máscara, capacete, bastão e espada.
A PRIMEIRA JORNADA - Segundo historiadores, ao saber, através dos Três Reis Magos, que nasceria em Belém o Rei dos Judeus, o tetrarca da Galiléia (Governador) Herodes conversou com eles a respeito do acontecimento e, fingindo interesse em adorar o novo Rei, pediu para os Três Reis Magos que, na volta, passassem em seu Palácio, para lhes dar a localização exata do recém nascido. Sabendo das más intenções de Herodes, os Três Reis decidiram voltar por outro caminho. Antigos Mestres de Folias acreditam que, tão logo os Santos Reis saíram, o tetrarca tenha mandado seus soldados segui-los, para saber onde estava o Menino Jesus. Daí, a tradição nas Folias de Reis de os palhaços não poderem ultrapassar a bandeira. Eles só se posicionam nas laterais ou na retaguarda. Isto porque os soldados nunca conseguiram alcançar os Reis Magos. Eles podem, no entanto, dançarem na frente da bandeira, desde que retirem a máscara.
Cabe ainda observar que a primeira fase das jornadas acontece no interior do Estado, quando as Folias de Reis saem entre os dias 24 de dezembro e 6 de janeiro. Geralmente esses grupos são formados por trabalhadores da lavoura, que antecipam seu trabalho para se dedicar à jornada durante esses doze dias. A segunda fase acontece nas cidades grandes, como Duque de Caxias, com grupos formados por trabalhadores urbanos, que não podem sair todos os dias. Por isso, só saem aos sábados e domingos, até o dia 20 de janeiro, num total de quatro finais de semana que representam os doze dias de viagem dos Três Reis Magos.
Ainda segundo alguns Mestres Reiseiros antigos, durante a jornada os Reis Magos pediram pousada nas casas por onde passavam. Depois de ficarem cientes do motivo da viagem, as famílias mais abastadas concediam ofertas, enquanto que as mais pobres, que também os acolhiam, nada podiam oferecer. Por isso, deles partem essas ofertas. No retorno às suas terras, depois da visita ao Menino Jesus, percebendo a grande quantidade de dotes que lhes sobraram, resolveram dar uma grande festa, para anunciar que viram, realmente, o Rei dos Judeus. Desta comemoração participou todo povo, que comeu e bebeu farta e gratuitamente, ao mesmo tempo em que improvisavam instrumentos musicais para animar a festança, a qual se tornou uma tradição que se repete todos os anos.
Dizem os antigos Mestres que foi inspirada nessa comemoração que surgiram os primeiros grupos de Folias de Reis. Estes, quando saem em jornadas, ao chegarem às casas para cantar, é como se estivessem pedindo pousada. Em suas cantorias, os Grupos de Folias falam das profecias acerca do nascimento de Cristo. Em casas que têm Santos, estes são saudados. Os anfitriões geralmente dão à Bandeira mantimentos ou uma oferta em dinheiro ou mantimentos, sem que seja estipulada quantia. No entanto, quando o dono da casa nada pode oferecer, o Mestre da Folia manda comprar alimentos fora para os moradores prepararem uma Ceia e da qual participam todos os presentes. Com o dinheiro que sobra das ofertas, os grupos promovem uma festa, chamada Festa de Arremate, que significa a Festa dos Reis, realizada até, no máximo, o dia 20 de dezembro. Se a Festa não for realizada, o grupo não sairá no ano seguinte, como manda a tradição.
A CHEGADA DAS FOLIAS NO BRASIL E OS PRIMEIROS GRUPOS
► As Folias de Reis constituem uma tradição do folclore brasileiro. Elas chegaram ao Brasil com os portugueses, os chamados "galegos", que traziam em sua bagagem essa herança, ainda decorrente da ocupação da Península Ibérica pelos mouros, segundo nos revelam velhos diretores de grupos. Trata-se de uma representação, lembrando os medievais, da jornada que levou os Três reis Magos a Belém. Essa jornada, lembrada no Reisado, teve vários incidentes e o imaginário popular colocou os soldados de Herodes perseguido os magos peregrinos.
É uma manifestação de origem árabe, que chegou a Europa com a invasão. As primeiras Folias de Reis no Brasil foram patrocinadas por fazendeiros, que promoviam disputa com os representantes das fazendas vizinhas. Às vezes, quando havia rixa entre os senhores das terras, para que eles não brigassem, punham as Folias para disputar. A que perdIa ficava desmoralizada e seus membros eram punidos pelo fazendeiro derrotado.
O folclorista e pesquisador Edgar de Souza, presidente da Federação de Reisado do Estado de Rio de Janeiro (Frerja), com sede em Duque de Caxias, lembra que essas disputas eram chamadas de "encontros". Nestes, os Mestres escolhiam o tema a ser abordado, sempre baseados no Velho ou Novo Testamento. Cada Mestre cantava em versos de quatro ou mais linhas, como num repente, parando em seguida para que o outro desse continuidade à historia, a partir de onde ele havia parado. Os encontros, que duravam horas, só se encerravam quando alguém errasse o texto ou não conseguisse dar continuidade ao tema escolhido. Aí, ao demonstrar pouco conhecimento da Bíblia, o grupo perdia tudo, principalmente a Bandeira, que era o troféu maior do vencedor - esta ficava presa na fazenda de origem da Folia vitoriosa até o próximo encontro, quando o outro provasse ter ampliado a sua cultura bíblica. Geralmente, o grupo perdedor não se conformava com a perda e saía para a briga.
Noutras ocasiões, uma Folia se escondia no mato para esperar a outra que certamente passaria por ali. Seus membros ficavam quietos até o momento oportuno. Quando passasse o último folião do grupo rival, então o Mestre, com apito, obrigava a outra Folia retornar e começava ali uma disputa. Edgar recorda que "encontros" aconteciam até recentemente e de uns tempos para cá a Federação de Reisado começou um trabalho de conscientização junto os membros para evitar os tais "encontros". Mesmo assim, segundo ele, ainda há grupos que mantêm essa tradição e a Federação vem fazendo os esforços necessários para evitar atrito dos foliões com a polícia, uma vez que os grupos, em algumas cidades, estavam proibidos de saírem às ruas devido a conflitos.
TOADAS - As músicas das Folias de Reis têm características próprias e são chamadas de toadas. Geralmente são compostas pelos próprios membros. Alguns deles, segundo Edgar, têm mais de cinquenta composições em seus repertórios. "As toadas são de maior aceitação popular e chegam às vezes até mesmo a serem gravadas por grandes nomes da Música Popular Brasileira", observa Edgar de Souza, citando como exemplo Milton Nascimento, que gravou "Calix Bento", Martinho da Vila ("Folia de Reis"), Mazaropi ("Tristeza do Jeca"), e Trio Parada Dura ("Viagem dos Magos"), com o nome de Folia de Reis. "Aqui em em Duque de Caxias, a Folia de Reis Penitentes Flor do Oriente toca em suas marchas uma batida rítmica idêntica ao Bolero, de Ravel. Há quem diga que o famoso compositor francês possa ter se inspirado em algum grupo ainda remanescente de alguma região da Europa", acredita.
A Federação de Reisado, criada em 1972, surgiu da necessidade da preservação desse segmento cultural, existente há várias décadas. Ainda existem grupos de Folia de Reis com cerca de 150 anos de existência, como a Estrela Guia de Xerém, fundada em 1851 em Duque de Caxias, Manjedoura da Mangueira, na Favela da Mangueira, em 1855, no Município do Rio de Janeiro, e a Penitente Flor do Oriente, de Duque de Caxias, no ano de 1862, entre outras, muitas delas do interior do Estado.
Somente no Estado do Rio de Janeiro, existem cerca de 500 grupos de manifestações populares. A Federação de Reisado, através de um minucioso trabalho de pesquisa, catalogou 480 grupos. "Porém, de acordo com nosso levantamento, mais da metade desses grupos está ameaçada de parar suas atividades dentro de pouco tempo. Esta manifestação popular infelizmente poderá, daqui a alguns anos, ser vista apenas em vídeo e fotografias", lamentou Edgar. Segundo ele, talvez por falta de campanhas eficazes de preservação, ou até mesmo em detrimento de outras iniciativas culturais de maior apelo popular.
CD - O trabalho da Federação é, principalmente, conscientizar, unir e apoiar os grupos, evitando a sua paralisação, além de promover o resgate da história dessa grande manifestação popular. Uma das iniciativas criadas há alguns anos é o "Projeto Folias de Reis", que foi concebido para conscientizar as autoridades culturais para que não permitam o desaparecimento desses grupos que têm um grande significado para a Cultura Popular do Brasil. No ano passado, a Frerja conseguiu editar um CD com apresentações ao vivo de alguns Grupos de Folias de Reis, como a Manjedoura da Mangueira, Penitente Flor do Oriente e Estrela do Oriente. O disco, que também trás também depoimentos, tem narração da historiadora Patrícia Peralta. O CD pode ser adqurido nas lojas da Funarte. A Federação de Reisado do Estado do Rio de Janeiro (Frerja) foi fundada em junho de 1972 e funciona na Av. Duque de Caxias nº 207, sala 210, centro, Duque de Caxias. O telefone para contato é (021) 3475-5602.
► 22 de agosto é o Dia Nacional do Folclore. Para marcar a data, a Federação de Reisado de Duque de Caxias vai promover uma festa popular no dia 17 do mesmo mês, no Corredor Cultural da Rua José de Alvarenga, no centro. Segundo Edgar de Souza, para o evento foram convidados 100 grupos de Folias de Reis e outras manifestações populares de várias partes do Estado. A comemoração conta com o apoio da Secretaria de Cultura de Duque de Caxias.
Programada para ocupar o palco do Sesi, no centro, ainda no mesmo ano de 1964, como lembra Edgar de Souza, a peça tinha como cenógrafo o professor, publicitário e artista plático Antônio Pacot, velho amigo e parceiro de Laís em outras empreitadas. Embora o grupo tenha recebido diversos recados das autoridades policiais, de que a peça estava proibida, ela foi exaustivamente ensaiada e marcada a sua estréia. No dia programado para abrir as cortinas do palco, um grupo de policiais miltares chegou ao teatro. De armas em punho, os bravos PMs levaram preso Edgar de Souza, Antônio Pacot, Laís Costa Velho e Luís Fernando.
Felizmente, a História não se rende aos censores e prepotentes, deixando sempre um espaço generoso para os que lutam contra a violência e o preconceito, como Edgar de souza, presidente da Federação de Reisado do Estado do Rio de Janeiro desde a sua fundação.











